“Quando eu
tiver dezesseis anos...” Esse havia se tornou um inicio habitual da resposta de
como eu imaginaria o meu futuro, nunca teria pensado em concluir a frase com a
situação em que me encontrava quando essa ‘idade de ouro’ se concretizou. Eu
havia procurado me lembrar de coisas felizes durante os últimos dois meses, como
uma espécie de escape mental da loucura a qual eu estava sujeita por conta da
solidão.
Eu estava em
cativeiro há tanto tempo e ainda não sabia de nada, eu não estava sendo
maltratada, estava sendo puramente aprisionada. Um cubículo com uma cama, uma
cadeira, uma escrivaninha com estante (esta com muitos livros que confesso que
não eram meu estilo de leitura, mas eu já os havia lido como única opção de
distração em meus primeiros dias), na gaveta haviam folhas de papel em branco e
materiais de desenho e pintura, o quarto contava com três paredes cinzas (uma
com um relógio com calendário automático), e uma branca onde estava a “janela”
do ambiente (uma fresta minúscula) por onde entrava o mínimo de luz natural e que
subindo na cadeira eu poderia avaliar como estava o céu, eu anotava isso nas
folhas em branco.
“28 de agosto –
Sem sol, nuvens escuras, mas não creio que vá chover” escrevi no verso da folha
que já chegava ao fim. Davam-me comida seis vezes ao dia, confesso que isso era
mais refeição do que eu costumava ter, me perguntava se minha madrasta se
preocupara comigo, se ainda me procurava, ou se havia aceitado que o sonho dela
de que eu desaparecesse tinha se tornado realidade. Era estranho eu me sentir
em maior paz de espírito estando à mercê do total desconhecido do que em casa?
Talvez a
dúvida devesse me incomodar, mas meu estado de choque e pânico já passara, a
raiva viera logo em seguida e a única pessoa que havia falado comigo desde que
eu acordei aqui sem me lembrar de como, havia sido para saber que tipo de
comidas em gostava.
- Eu sei lá,
qualquer coisa, eu quero saber que lugar é esse. – eu respondera de imediato,
quase gaguejando.
- Não diga
qualquer coisa, depois irei lhe trazer couve de Bruxelas e você vai se
arrepender dessa resposta. – O garoto que aparentava ser pouco mais velho que
eu abrira um sorriso que quase se transformara em uma risada. – Vamos me fale
pelo menos cinco coisas que você gosta de comer.
- Eu quero
saber o que aconteceu, eu não me lembro de nada que teria acontecido nessa
última semana. – Eu apenas me lembrava
de minha mãe adotiva me mandando dormir, eu estava no computador fazia horas
conversando com minha melhor amiga, a mulher entrou no quarto gritando com a
corda em mãos, e não houvera mais alternativa há não ser me deitar, aquela
corda doía...
- Eu não vou
te falar nada agora, só adianto que você ficará aqui por algum tempo, então eu
sabiamente aconselho que me fale que comidas você gosta.
Desde então eu
vinha sendo alimentava com Burger King, frutas, macarrão e mousse de sabores
variados.
- Olá – me virei
de súbito para a porta que estava sempre trancada, pela primeira vez desde o dia
da comida, o garoto viera falar comigo, fiquei feliz de depois de tanto tempo
ouvir uma voz fora da minha imaginação, nervosa por não saber o motivo da
visita, curiosa sobre tudo, sobre quem ele era.
- Vai me contar por que estou aqui? –
perguntei com a voz baixa, ela falhava, eu havia passado quanto tempo sem falar
algo fora da minha cabeça? Eu havia
cantarolado alguma canção outro dia. Eu não tinha certeza se ele teria me
escutado. – Por quê?
- Feliz
Aniversário, eu queria que as coisas tivessem sido diferentes, querida, mas
tudo isso tem sido necessário para você ficar a salvo. Só queremos te proteger.
- Ele me lançou um olhar magoado.
- Quem quer me
proteger? Do que? – Quanto mais perguntas eu fazia, mais seu olhar se
intensificava, e no fundo aquilo me machucava, pensei em parar de falar, dizer
que estava tudo bem, mas aquele sentimento não fazia sentido, então o ignorei e
continuei minha onda de dúvidas. – Você me chamou de querida?
- Eu não devia
estar aqui, mas eu precisava te ver. Saber se você quer mais alguma coisa, já
terminou de ler os livros?
- Já, eles são
minúsculos e sinceramente um tanto chatos. Porque não deveria estar aqui? Você
me conhece?
- Sério?
Costumavam serem seus favoritos... – Dava para ver o como estava desapontado em
sua voz, a cada frase que ele dizia minha dúvida se aumentava e eu podia sentir
minha interrogação interna se inchando. – Eu ainda não posso te contar nada,
querida. Eu te trouxe um presente. – Ele disse me entregando uma grande caixa
dourada. - O garoto se dirigiu à porta fechada, girou a chave e estava indo
embora, mais uma vez sem me dar respostas.
- Você me
conhece? – Testei aquela pergunta uma última vez. De todas, talvez a menos
importante, mas a que eu haveria mais chances de conquistar uma resposta.
- Sim. – Ele balbuciou
parado na soleira, dava para ver atrás dele que onde estávamos era apenas uma
porta em um fino corredor, eu não tinha chances de fuga. Aquela única palavra
dele parecia carregada de dor, pesada, tanto que me puxava junto sem eu saber
ao certo porque, aquilo me atingia? Eu não o conhecia, conhecia?
E então tudo
aconteceu rápido demais, ele precisou dar apenas um passo longo para chegar até
mim, não daria para eu andar para trás sem derrubar a estante ou me sentar na
escrivaninha, a caixa havia caído da minha mão, eu estava estática, enquanto
seu rosto parava a centímetros do meu, minha respiração ficou mais pesada, e
dava para perceber que a dele também, próximo demais.
Ele me beijou.
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