Acordei assustada, me ergui na cama
para ficar apoiada com as costas na cabeceira, tudo havia sido muito vívido, eu
podia ainda sentir o toque na minha pele, eu diria que meu cabelo estava
bagunçado por conta da ventania que eu havia enfrentado no sonho, mas sabia que
tinha sido apenas efeito de uma noite conturbada, penteei meus fios com os
dedos da mão e improvisei um coque.
- Parece que agora você está ainda
mais próxima de mim – essa havia sido a mensagem que a energia passara para
mim, basicamente, eu estava no meio de um campo branco de trigos (brancos) e
ventava para todos os lados, e eu conseguia sentir esse poder, esse fluído,
junto com o vento, e ele tentava falar comigo, quando finalmente compreendi o
que dissera, o sonho acabara.
Olhei ao meu redor um tanto
desnorteada, eu ainda estava no mesmo lugar, as paredes me consumindo. A cada
dia eu estava mais absorta em meus pensamentos, o conforto superficial que eu
sentira tempos atrás haviam sido substituídos por perguntas e mais perguntas
sem respostas. Eu me lembrava de cada frase que aquele garoto havia dito para
mim, e ainda havia aquele beijo... Que foi mais um contato entre lábios
seguidos de um empurrão e incertezas. Uma parte de mim desejava ter retribuído,
queria mais, e ele não era de todo feio, mas não era a pessoa mais atraente do
mundo, e essa minha vontade subconsciente me deixava ainda mais confusa.
O menino tinha cabelos castanhos e
olhos de mesma tonalidade, suas sobrancelhas se uniam quase em uma só, tinha o
contorno dos lábios finos e a pele clara se destacava com uma marca de nascença
no pescoço, não era muito alto, e era em todo proporcional, ombros largos.
Eu, mesmo sedentária, nunca
ultrapassei os limites da boa saúde em questões físicas. Cabelos escuros e
ondulados, que sempre estavam soltos. O banheiro ao lado do cubículo, não havia
espelho, e eu já me esquecia do meu próprio rosto.
Ainda
deitava na cama, ouvi o ranger da porta, o rosto desconhecido e ao mesmo tempo
familiar, um homem que aparentava no máximo trinta anos entrou no ambiente
analisando cada centímetro com os olhos pretos, pousou seu olhar em mim e eu
pude escutar sua voz que mais parecia de um locutor de rádio.
- Olá Zoe,
imagino que estando aqui a quase três meses você deva estar chateada, e até
revolta. E acima de tudo frustrada pela falta de explicações sobre o que está
ocorrendo com a sua situação. – Seu tom de voz era sereno, passava confiança,
mas parecia ser carregada também de uma espécie de sonífero, lembrava algum
professor legal de matéria chata.
- Certo,
certo, mas não estou revoltada. Eu só quero muito saber, eu tenho esse direito,
se é que estou aqui com alguma espécie de direitos humanos. – Tentei imitar seu
ritmo de fala.
- Com uma
aprovação de noventa por cento do conselho resolvemos te deixar livre nas
instalações do prédio, este continuará sendo seu quarto, e você não poderá sair
das dependências. – Ele a cada segundo parecia estar avaliando minha expressão
facial, então me forcei a permanecer neutra. – Eu sou o doutor Henrique,
responsável pela orientação e iniciação do Instituto. Perguntas?
- Várias,
você vai respondê-las?
- Sim, vamos
começar nosso tour, e então podemos conversar. – Ele fazia um gesto abrangente
pela porta que eu tanto ansiava atravessar.
- Só um
minuto. – Me levantei da cama, e me dirigi ao pequeno banheiro no qual eu havia
largado a muda de roupa limpa que haviam deixado pela abertura da porta no dia
anterior. Uma calça jeans e uma blusa
lisa branca, me troquei tomando cuidado para não ficar no ângulo no qual
Henrique pudesse me ver.
Segui ele
pelo corredor que não era bem como eu havia imaginado, nada na verdade era como
eu havia imaginado, na minha mente estavam em um covil secreto dentro de uma
caverna debaixo da terra, onde tudo era escuro apenas sendo iluminado por
pequenas lâmpadas penduradas por finos fios no teto. Mas o ambiente era claro,
do lado da porta pela qual saímos havia um cubículo semelhante com a porta
aberta onde um garoto estava lendo um livro. O menino que aparentava ter no
máximo dez anos cumprimentou Henrique.
- A situação
dele é semelhante a sua. – Henrique comentou quando nos afastamos da porta do
garoto, passando por uma serie de cubículos decorados, alguns com crianças e
adolescentes que não aparentavam ter mais de dezesseis anos.
- E qual a
minha situação?
- Para fins
oficiais você está como TEP, mas na sua concepção seria IP. – ele falou como se
aquelas siglas tivessem que fazer algum sentido para mim. – Ah, minha falha.
TEP significa Transferido por Escolha Própria, que escolheu estar no instituto
e já frequentou outra associação antes. Mas por enquanto você se vê como IP,
Iniciada para Proteção, no qual você foi trazida até aqui sem opção de recusa,
para seu próprio bem.
- O garoto é
TEP ou IP?
- TEP.
- Do que eu
estou sendo protegida? – Nada que eu tivesse feito durante toda minha vida
seria motivo para despertar a raiva de qualquer um, eu sempre havia sido a
certinha, a que tentava ajudar os outros.
- De você
mesma, e do conselho de Tertiam.
Viramos à direita em um corredor que
havia mais cubículos, era como um presídio de luxo. O final do corredor dava um
sala ampla no qual haviam mesas e mais adolescentes, estes que pareciam estar
estudando, tive a impressão de ver uma luz estourando, mas quando olhei
novamente ela estava funcionando perfeitamente. No meio da sala, seguindo a
linha do corredor havia uma escadaria.
- O que eu poderia fazer contra mim?
E o que é Tertiam?
- Você é uma bomba relógio, até
aprender a como se controlar, e é isso que fazemos no instituto. Tertiam é a
Terceira Força, você verá mais sobre isso na orientação em vídeo que irá
ocorrer amanhã. – Descemos a escadaria, e então o ambiente todo me pareceu
familiar, me lembrava minha escola da primeira série, e eu tive a impressão de
saber onde estava tudo. – Aqui é chamado pelos alunos de diretórios, daqui você
chega a qualquer lugar do Instituto, as salas são seguindo por aqui – dizia ele
apontando para um largo corredor estilo escola, há direita temos a biblioteca
da Primeira Força, e do lado temos da Segunda Força, agradeço se depois você
pegar os livros que estão no seu quarto e devolver na primeira biblioteca, Zack
pegou há dois meses atrás e a srta. Ramos já está ficando chateada.
- Calma, muita informação. Controlar o que? Quem é
Zack?
- Achei que você o conhecesse... –
Ele parecia estar tomando cuidado com cada palavra, escondendo algo – Ele foi o
responsável por saber o que você gostaria de comer, e ter no seu quarto... –
Sua expressão mostrava claramente que ele tinha ficado desconfortável com o
rumo que a conversa tomara. – Bem o refeitório fica por ali, e parece que hoje
o café da manhã está com muitas opções de frutas frescas. – Ele me orientou
para que eu entrasse em um portão, e disse para que eu me enturmasse.
O refeitório era exatamente como eu
imaginava, ou lembrava... Naquele lugar eu estava imersa em uma constante
sensação de Déjà vu, mas o que importava é que agora o menino do beijo tinha nome, Zack, e eu
agora sabia que havia algo relacionado a ele e Henrique. E minhas respostas
seriam respondidas no dia seguinte. Agora, eu estava “livre” e poderia saber
mais sobre aquele lugar pelas pessoas que estavam lá.
- Oi. – Falei para uma menina de
cabelos ruivos que estava sentada na mesa ao meu lado, ela aparentava minha
idade, eu estava em pé na lateral da mesa e acenei – Eu sou a Zoe.
- Aléxia, prazer. E eu sei quem você
é. – A menina soltou um risinho – Por que voltou ao Instituto?
Nenhum comentário:
Postar um comentário